domingo, 22 de novembro de 2009

Não existe linha de chegada

Descrever o resultado de um experimento (como chamaria a tudo Artaud) é aqui um pouco de impressão de quem ainda está experimentando.
Encerramos dia 22 de novembro a temporada de 2009 para cumprirmos outros compromissos de produção e “Na Selva das Cidades” volta em sonhado repertório do grupo em 2010, no mesmo Teatro Aliança Francês, junto com outros dois autores em peças nunca traduzidas para o português. E também trazendo um ciclo de leituras de obras transgressoras, o que faz parte da história do Teatro do Incêndio.
Foram 3 meses de temporada da “Selva”, “A Selva”, “Na Selva”, “Sobre a Selva”. Nesse espetáculo fui raptado pela multiplicidade de compreensões das platéias. Mesmo tendo feito outras peças de Brecht, o ponto de comunicação preciso pela poesia do autor nunca tinha se revelado de forma tão concreta e clara, apaixonada e acordada (de razão) nos espectadores para mim.
Na medida em que o espetáculo vai amadurecendo, o jogo da vida urbana em forma de arte, diversão, parece “aliviar” o ouvinte, confirmando que ele não está louco, mas sim as relações de vício de vitória, destruição do caráter, mania de perseguição e abalos psíquicos dessa sociedade tarada e enfurecida que encarcerou Artaud, enriqueceu o maduro Rimbaud levando dele uma perna e já havia exilado Eurípedes, é que corrompem esfriando rostos e falas.
Tiro dessa primeira temporada a certeza de que o público não engole tudo. Quer ver respeitada sua inteligência, quer ser instigado, quer ver teatro bem acabado, quer ter o direito de tirar conclusões pessoais sobre o mundo. Tiro também de mim a necessidade de qualquer discussão estética que não incluía o pra quem, a relação com esse espectador que é o mundo, pondo fim as relações unilaterais do palco impor “verdades”, abrindo caminho para a comunhão criar versões ao vivo, filosofias, risos e ações.
Dos 15 espetáculos realizados na Funarte tivemos lotações esgotadas, inclusive no chão. Sem interromper a temporada, seguimos para o Aliança Francesa para mais 12 apresentações: um baixa rápida de público de uma semana, mas a confirmação do novo endereço mostrou em seguida que não foi acidente o interesse pelo espetáculo-tema-atuação. O mais prazeroso tem sido o interesse, a grande presença de público jovem que não tem hábito de ir ao teatro, assistindo com energia uma peça de 2:10 h sem achar longa.
“Na Selva das Cidades” permitiu a consolidação de núcleos de figurinos, cenografia, interpretação, música e produção dentro do grupo, que caminha para uma auto-suficiência nessas áreas, dispensando serviços terceirizados. Mas falta muito, muito ainda.
Peças com a complexidade da Selva permitem assuntos variados, idéias sobrepostas, escolha de conversas. Além da beleza que é a cenografia de muitos corpos em cena, a beleza real da arte do palco.
Na direção contrária ao mau humor, a desilusão, depressão e o chororô de Gerald Thomas, minha fé no teatro encontra-se aqui inabalável: ele pode e é o equilíbrio possível na busca pela humanidade que é obrigada a ficar na defensiva.
Nós dançamos a crueldade implacável do teatro de Brecht, do “teatro do Herói Surrado”, como disse Walter Benjamin do Teatro Épico.
Nosso teatro transborda o amor pelo que fazemos. Nós damos em gozo nosso samgue, a nossa luta. Nossa parte não é reclamar, é interessar, é trocar. O teatro é a arte do querer. De quem faz e quem vê.
As interpretações surpreendentes de Wanderley Martins, Liz Reis e Rene Ramos para a Selva criaram um diálogo com a direção tirando a imposição da função. A música que João Urbílio inventou a cada dia de ensaio traz uma visão particular de ópera urbana, tentadora, poética crua alegórica para uma cidade histérica.
A estréia de atores no grupo que se descobrem e crescem na temporada, aprofundam o diálogo cênico e a evolução da peça. Todos atores: Zaíra B. Alves, Sergio Ricardo (diretor de cena maravilhoso e cenógrafo criativo), o talentoso jovem Thiago Molfi (baterista), Fabiana Vajman, Valdir Zanquini, Ivon Mendes (também genial maquiador) e Ricardo Mancini que encarnou de forma única Karl Valentin nessa montagem.
O teatro do Incêndio é uma idéia que completa 15 anos em 2010. Um dos fundadores dessa idéia, Wanderley Martins, se impõe como ator em seu lugar merecido em Brecht. A direção do grupo divido com Liz Reis, atriz maravilhosa, guerreira na produção e figurinista de mão cheia.
Para esses 15 anos, que começamos com “Na Selva das Cidades”, pretendemos abrir espaço para formar pessoas dentro de uma linguagem desenvolvida para nossas criações, corporal e filosófica. Dialogar com a cidade, abrir as portas para quem quer fazer do teatro sua casa, sua opção. Não importa a dificuldade da produção. Ao contrário daquela frase infeliz, “único teatro possível” é o que tem o tamanho do sonho. E é a hora do combate.

(texto escrito a pedido do jornalista Michel Fernandes)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Quando eu era jovem

Quando eu era jovem eu não duvidava de mim:
Eu estava certo.
Mas quando eu era jovem eu também não duvidava:
E com isso eu compreendia o que?
Quando eu era jovem eu queria ser sábio:
Mas isso as certezas não me permitiram.
Quando o tempo passou um pouco
Fiquei escravo do meu jovem:
Jamais esquecerei como é pequena a negação
Da própria ignorância.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Na Selva das Cidades - Fotos Pya Lima

Liz Reis

Wanderley Martins, Fabiana Vajman e Marcelo Fonseca
Záira B. Alves
Rene Ramos e Marcelo Fonseca
Rene Ramos, Sérgio Ricardo e Marcelo Fonseca
Liz Reis como "Marie Garga"

Wanderley Martins

Ivon Mendes, Liz Reis e Valdir Zanquini

Sergio Ricardo, Nader Ghosn, Fabiana Vajman e Valdir Zanquini

Ricardo Mancini e Thiago Molfi
Ivon Mendes, Nader Ghosn, Sergio Ricardo, Fabiana Vajman e Valdir Zanquini
Rene Ramos
Liz Reis
"Na Selva das Cidades" está em cartaz no teatro Aliança Francesa aos sábados as 21 h e domingos 20 h.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Na Selva das Cidades - Teatro Aliança Francesa

































































Fotos: Roberto Sousa

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Na Selva das Cidades - Ensaio por Pya Lima


































Nas fotos: Liz Reis como Marie Garga, Rene Ramos como Shlink e Marcelo Marcus Fonseca como George Garga.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Na Selva das Cidades - imagens de ensaio


"Há dois tipos de Artes que devem ser desenvolvidas: a Arte do ator e a Arte do espectador." (Bertolt Brecht)
"Os experimentos intermináveis do Partido Revolucionário, que transformaram e reformaram nosso país, devem ser experimentos que se relacionam com a Arte, ousados como ela e necessários como ela." (B.B.)


"A “Palavra dos Poetas” não é mais sagrada do que verdadeira, o Teatro não é o empregado do poeta, mas sua sociedade." (B.B.)

"Eu tenho minhas opiniões, não porque eu estou aqui, mas eu estou aqui, porque tenho minhas opiniões." (B.B)

"A espera por um nova guerra paralisa a reconstrução do mundo. Nós não estamos hoje escolhendo entre a paz e a guerra, mas sim entre a paz e a decadência." (B.B.)





"Nossa platéia não deve apenas ouvir como se liberta um Prometeu acorrentado, mas deve também aprender a sentir o prazer de libertá-lo." (B.B)




"A Cultura, durante muito tempo, só foi defendida com armas intelectuais, mas foi agredida com armas materiais; as questões intelectuais, bem como as materiais devem ser garantidas por armas materiais." (B.B)




"Se você quer escrever a verdade sobre situações problemáticas, com eficácia, você tem que escrever de tal maneira que o fato, a ser evitado, possa ser reconhecido." (B.B)





"Eu quero fazer uma Arte, que toque o que é mais importante e profundo e que perdure por mil anos: não deve ser tão séria." (B.B)





"Não procure mais, mulher: você não vai mais achar.
Também o destino, não o culpe, mulher.
O poder obscuro, mulher, a te martirizar,
Nome, endereço e rosto hão de ter." (B.B.)




"Está certo: com a Grande Revolução, começa um grande tempo para as Artes. Que tamanho elas vão ter?" (B.B)
* * * *
Fotos de Ivon Mendes de ensaio do espetáculo "Na Selva das Cidades"

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A Selva é o Homem

"Na Selva das Cidades" a pessoa é a selva. No centro da guerra pela sobrevivência ou pelo simples capricho o homem precisa ultrapassar obstáculos. Ocorre a mim que nos dias atuais vivemos a destruição do outro como vício. Sem saber por que, com qual método ou dinâmica, sem objetivo algum.
O homem precisa acabar com o que se põe em seu caminho e precisa colocar alguma coisa no caminho. Brigamos porque precisamos da luta, mas não sabemos por que lutamos. Esse mundo pede socorro dialeticamente.
O apelo por um novo humanismo – e a falência dele – nos leva a soluções solitárias ou soluções coletivas solitárias. Com o niilismo novamente em voga numa hora em que nem o niilismo é mais uma opção. A violência das relações – a luta – desmascara oponentes: mas eles realmente têm esse rosto? Ou essa nova face nasce justamente da violência fria da lei da “selva”?
Intolerância com o diferente, homofobia, vaidade, rancor, autopunição, ódio, mesquinharia, pobreza, a maldade em uma boa ação, liberdade, são de certa forma assuntos correlatos discutidos na peça para o espectador de hoje, que observa assustado a fraqueza moral em suas calçadas.

Ao mesmo tempo Brecht tempera o tema com poesia e com um caráter cômico do dinheiro que compra eticamente os que justificam qualquer ato pela necessidade.
Destruindo tudo – cultural e moralmente, mais que no campo político – em uma luta inglória, não vemos heróis e desvenda-se um mundo onde uma palavra deixou de existir: Vencedor. A posse da alma é o objetivo que para ser alcançado se pratica o canibalismo em cada esquina. Uma luta estéril e sem finalidades como mísseis nucleares feitos para endereços futuros, motivos futuros, ignorâncias futuras.
No meio de mortos vivos, Na Selva das Cidades, apresenta a aventura daqueles que querem viver. E no caos se consomem. Nem a morte é uma saída, somente há o desejo infinito e não se sabe nem desejo de que. O vazio de ser. A impossibilidade da troca real, da comunicação entre os escombros das emoções calejadas.
Assim vejo eu a cidade que sou impulsionado a desbravar todos os dias: acolhedora e impiedosa.
Não posso aceitar um planeta onde os atos precisam ser justificados de antemão pois são julgados antes de serem honestos.
É preciso olhar essa peça com os olhos de hoje, nas relações de amor e ódio sem motivo algum. Porque as vezes ambos existem sem motivo por medo da solidão e do fracasso. E o fracasso não existe. É mais uma ilusão da selva que embaça a vista.

"Na Selva das Cidades", produção do Teatro do Incêndio, estréia dia 11 de setembro de 2009.