Descrever o resultado de um experimento (como chamaria a tudo Artaud) é aqui um pouco de impressão de quem ainda está experimentando.
Encerramos dia 22 de novembro a temporada de 2009 para cumprirmos outros compromissos de produção e “Na Selva das Cidades” volta em sonhado repertório do grupo em 2010, no mesmo Teatro Aliança Francês, junto com outros dois autores em peças nunca traduzidas para o português. E também trazendo um ciclo de leituras de obras transgressoras, o que faz parte da história do Teatro do Incêndio.
Foram 3 meses de temporada da “Selva”, “A Selva”, “Na Selva”, “Sobre a Selva”. Nesse espetáculo fui raptado pela multiplicidade de compreensões das platéias. Mesmo tendo feito outras peças de Brecht, o ponto de comunicação preciso pela poesia do autor nunca tinha se revelado de forma tão concreta e clara, apaixonada e acordada (de razão) nos espectadores para mim.
Na medida em que o espetáculo vai amadurecendo, o jogo da vida urbana em forma de arte, diversão, parece “aliviar” o ouvinte, confirmando que ele não está louco, mas sim as relações de vício de vitória, destruição do caráter, mania de perseguição e abalos psíquicos dessa sociedade tarada e enfurecida que encarcerou Artaud, enriqueceu o maduro Rimbaud levando dele uma perna e já havia exilado Eurípedes, é que corrompem esfriando rostos e falas.
Tiro dessa primeira temporada a certeza de que o público não engole tudo. Quer ver respeitada sua inteligência, quer ser instigado, quer ver teatro bem acabado, quer ter o direito de tirar conclusões pessoais sobre o mundo. Tiro também de mim a necessidade de qualquer discussão estética que não incluía o pra quem, a relação com esse espectador que é o mundo, pondo fim as relações unilaterais do palco impor “verdades”, abrindo caminho para a comunhão criar versões ao vivo, filosofias, risos e ações.
Dos 15 espetáculos realizados na Funarte tivemos lotações esgotadas, inclusive no chão. Sem interromper a temporada, seguimos para o Aliança Francesa para mais 12 apresentações: um baixa rápida de público de uma semana, mas a confirmação do novo endereço mostrou em seguida que não foi acidente o interesse pelo espetáculo-tema-atuação. O mais prazeroso tem sido o interesse, a grande presença de público jovem que não tem hábito de ir ao teatro, assistindo com energia uma peça de 2:10 h sem achar longa.
“Na Selva das Cidades” permitiu a consolidação de núcleos de figurinos, cenografia, interpretação, música e produção dentro do grupo, que caminha para uma auto-suficiência nessas áreas, dispensando serviços terceirizados. Mas falta muito, muito ainda.
Peças com a complexidade da Selva permitem assuntos variados, idéias sobrepostas, escolha de conversas. Além da beleza que é a cenografia de muitos corpos em cena, a beleza real da arte do palco.
Na direção contrária ao mau humor, a desilusão, depressão e o chororô de Gerald Thomas, minha fé no teatro encontra-se aqui inabalável: ele pode e é o equilíbrio possível na busca pela humanidade que é obrigada a ficar na defensiva.
Nós dançamos a crueldade implacável do teatro de Brecht, do “teatro do Herói Surrado”, como disse Walter Benjamin do Teatro Épico.
Nosso teatro transborda o amor pelo que fazemos. Nós damos em gozo nosso samgue, a nossa luta. Nossa parte não é reclamar, é interessar, é trocar. O teatro é a arte do querer. De quem faz e quem vê.
As interpretações surpreendentes de Wanderley Martins, Liz Reis e Rene Ramos para a Selva criaram um diálogo com a direção tirando a imposição da função. A música que João Urbílio inventou a cada dia de ensaio traz uma visão particular de ópera urbana, tentadora, poética crua alegórica para uma cidade histérica.
A estréia de atores no grupo que se descobrem e crescem na temporada, aprofundam o diálogo cênico e a evolução da peça. Todos atores: Zaíra B. Alves, Sergio Ricardo (diretor de cena maravilhoso e cenógrafo criativo), o talentoso jovem Thiago Molfi (baterista), Fabiana Vajman, Valdir Zanquini, Ivon Mendes (também genial maquiador) e Ricardo Mancini que encarnou de forma única Karl Valentin nessa montagem.
O teatro do Incêndio é uma idéia que completa 15 anos em 2010. Um dos fundadores dessa idéia, Wanderley Martins, se impõe como ator em seu lugar merecido em Brecht. A direção do grupo divido com Liz Reis, atriz maravilhosa, guerreira na produção e figurinista de mão cheia.
Para esses 15 anos, que começamos com “Na Selva das Cidades”, pretendemos abrir espaço para formar pessoas dentro de uma linguagem desenvolvida para nossas criações, corporal e filosófica. Dialogar com a cidade, abrir as portas para quem quer fazer do teatro sua casa, sua opção. Não importa a dificuldade da produção. Ao contrário daquela frase infeliz, “único teatro possível” é o que tem o tamanho do sonho. E é a hora do combate.
(texto escrito a pedido do jornalista Michel Fernandes)
Encerramos dia 22 de novembro a temporada de 2009 para cumprirmos outros compromissos de produção e “Na Selva das Cidades” volta em sonhado repertório do grupo em 2010, no mesmo Teatro Aliança Francês, junto com outros dois autores em peças nunca traduzidas para o português. E também trazendo um ciclo de leituras de obras transgressoras, o que faz parte da história do Teatro do Incêndio.
Foram 3 meses de temporada da “Selva”, “A Selva”, “Na Selva”, “Sobre a Selva”. Nesse espetáculo fui raptado pela multiplicidade de compreensões das platéias. Mesmo tendo feito outras peças de Brecht, o ponto de comunicação preciso pela poesia do autor nunca tinha se revelado de forma tão concreta e clara, apaixonada e acordada (de razão) nos espectadores para mim.
Na medida em que o espetáculo vai amadurecendo, o jogo da vida urbana em forma de arte, diversão, parece “aliviar” o ouvinte, confirmando que ele não está louco, mas sim as relações de vício de vitória, destruição do caráter, mania de perseguição e abalos psíquicos dessa sociedade tarada e enfurecida que encarcerou Artaud, enriqueceu o maduro Rimbaud levando dele uma perna e já havia exilado Eurípedes, é que corrompem esfriando rostos e falas.
Tiro dessa primeira temporada a certeza de que o público não engole tudo. Quer ver respeitada sua inteligência, quer ser instigado, quer ver teatro bem acabado, quer ter o direito de tirar conclusões pessoais sobre o mundo. Tiro também de mim a necessidade de qualquer discussão estética que não incluía o pra quem, a relação com esse espectador que é o mundo, pondo fim as relações unilaterais do palco impor “verdades”, abrindo caminho para a comunhão criar versões ao vivo, filosofias, risos e ações.
Dos 15 espetáculos realizados na Funarte tivemos lotações esgotadas, inclusive no chão. Sem interromper a temporada, seguimos para o Aliança Francesa para mais 12 apresentações: um baixa rápida de público de uma semana, mas a confirmação do novo endereço mostrou em seguida que não foi acidente o interesse pelo espetáculo-tema-atuação. O mais prazeroso tem sido o interesse, a grande presença de público jovem que não tem hábito de ir ao teatro, assistindo com energia uma peça de 2:10 h sem achar longa.
“Na Selva das Cidades” permitiu a consolidação de núcleos de figurinos, cenografia, interpretação, música e produção dentro do grupo, que caminha para uma auto-suficiência nessas áreas, dispensando serviços terceirizados. Mas falta muito, muito ainda.
Peças com a complexidade da Selva permitem assuntos variados, idéias sobrepostas, escolha de conversas. Além da beleza que é a cenografia de muitos corpos em cena, a beleza real da arte do palco.
Na direção contrária ao mau humor, a desilusão, depressão e o chororô de Gerald Thomas, minha fé no teatro encontra-se aqui inabalável: ele pode e é o equilíbrio possível na busca pela humanidade que é obrigada a ficar na defensiva.
Nós dançamos a crueldade implacável do teatro de Brecht, do “teatro do Herói Surrado”, como disse Walter Benjamin do Teatro Épico.
Nosso teatro transborda o amor pelo que fazemos. Nós damos em gozo nosso samgue, a nossa luta. Nossa parte não é reclamar, é interessar, é trocar. O teatro é a arte do querer. De quem faz e quem vê.
As interpretações surpreendentes de Wanderley Martins, Liz Reis e Rene Ramos para a Selva criaram um diálogo com a direção tirando a imposição da função. A música que João Urbílio inventou a cada dia de ensaio traz uma visão particular de ópera urbana, tentadora, poética crua alegórica para uma cidade histérica.
A estréia de atores no grupo que se descobrem e crescem na temporada, aprofundam o diálogo cênico e a evolução da peça. Todos atores: Zaíra B. Alves, Sergio Ricardo (diretor de cena maravilhoso e cenógrafo criativo), o talentoso jovem Thiago Molfi (baterista), Fabiana Vajman, Valdir Zanquini, Ivon Mendes (também genial maquiador) e Ricardo Mancini que encarnou de forma única Karl Valentin nessa montagem.
O teatro do Incêndio é uma idéia que completa 15 anos em 2010. Um dos fundadores dessa idéia, Wanderley Martins, se impõe como ator em seu lugar merecido em Brecht. A direção do grupo divido com Liz Reis, atriz maravilhosa, guerreira na produção e figurinista de mão cheia.
Para esses 15 anos, que começamos com “Na Selva das Cidades”, pretendemos abrir espaço para formar pessoas dentro de uma linguagem desenvolvida para nossas criações, corporal e filosófica. Dialogar com a cidade, abrir as portas para quem quer fazer do teatro sua casa, sua opção. Não importa a dificuldade da produção. Ao contrário daquela frase infeliz, “único teatro possível” é o que tem o tamanho do sonho. E é a hora do combate.
(texto escrito a pedido do jornalista Michel Fernandes)












