terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Surrealismo

Nossos dias exalam a ingenuidade da repressão e do pavor. Uns querem fazer crer no perigo, há os que acreditam no perigo, outros sufocados torcem as mãos ainda sem saber direito do que se trata. A prisão espreita esperta todo ser vivente com suas mil mãos de borracha e fala de seda: acontecimentos brutais paralisam ainda mais o homem encarcerado em si mesmo.
De todos os cantos dizem que já se chegou a tudo e que tudo será repetição. Querem provar que existe método nas coisas e que o mundo é igual. Mas não é. Pelas últimas informações, são 7 bilhões de chaves. Todas antenadas com algo exterior particular e sobreposto, e sobrepostas as chaves, anarquicamente, as combinações são infinitas.
Por que o Surrealismo é a única saída possível?
Apoiado em coisa alguma, impulso psíquico, cada expressão é única, todo seu movimento é democrático. Ao jogar a lógica na latrina, damos lugar ao real interno, movido pela razão do que vivemos.
Então o Surrealismo ressurgirá com todas os seus contornos sem cercas, novamente implacável, mas desta vez definitivo e derrubando seus críticos medrosos, apoiados no que os mantém acima dos outros: o Surrealismo nivela e iguala. Dá um fim ao erro e tira do trono os cachimbos sérios com seus óculos de esnobismo. Como poderão conviver com algo que está ao alcance de todos, onde cada um monta seu próprio quebra-cabeças, onde a inteligencia é resultado e não ameaça?
É necessário dizer o que já foi dito: todo esse movimento é amoroso, pois é livre do ódio e prova que a emoção cria. Seria então uma revolução amorosa? Talvez, e mais séria, contundente e dinâmica que as revoluções armadas, que os gritos de protesto, que as políticas de galinheiro.
Digo que o Surrealismo está pronto para o mundo e o mundo para ele, e que haverá a libertação total do homem por meio dele quase um século depois de sua criação ou síntese. Digo que isso acontecerá de forma avassaladora, até que não exista mais nada, mais lógica, mais patologias, mais julgamentos, e não existirá força que possa coibir ou fazer sangrar. O Surrealismo é uma alucinação viciante que não pode ser proibida pela lei. Diante dele todas as drogas serão obsoletas. Depois de André Breton, Antonin Artaud, Paul Éluard, Louis Aragon, todos são seus criadores, pois ele foi um presente como o fogo de Prometeu.
Surrealismo é medicina em si, é o homem como seu  próprio médico na conturbada era que o asfixia. Grito ancestral de cada iniciado, mundo interno da visão, olhar leitor sobre cada pedra da estrada de terra e asfalto que leva aos cinemas e aos teatros. Cadeira vazia recheada de cores múltiplas, distorção das distorções sociais. Seus manifestos precisam urgentemente serem lidos nas escolas que estão sistematicamente transformando futuros poetas em autômatos. É preciso corroer a alma prática da educação ensinando a ver por si mesmo cada embrião da sociedade para que ninguém mais morra de sede. Versos cromáticos, imagens confrontadas, fim das algemas da praticidade mórbida. sair de toda posição, real ou imaginária, de refém das coisas e apresentar palavras que não devem ser corrigidas, ou pelo menos não precisam de explicação. A música interna será a substituta da "voz interna". Algo que toca, algo que dança e se expressa, pois o Surrealismo existe no mundo, e não fora dele.
A ideia é criar sentidos variados para tudo que existe e do choque entre os sentidos se fazer sentir a particularidade humana. Pétala ao alcance da mão, deixada na flor como protesto, lua refletindo o sol como vingança do espelho de nós mesmos.

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