terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O mistério nos sonhos

Caro,

não existe uma fórmula de se ter tudo, assim como não existe uma outra de se ter somente o que se quer. Titubear é natural, afinal, na encruzilhada, não é possível ver aonde chega o fim da estrada dos três caminhos a frente do que nos fez chegar até ela. E o que nos leva até lá é nossa  própria direção, nosso próprio desejo, não outra coisa.
O vasto leque do mundo está em nós mesmos e não no mundo. Nós fazemos o mundo em nós e as viagens são internas. Não dependemos de nada para aplacar o vazio (pois o vazio é maior juntando mais vazios). A soma dos nossos sentimentos, a busca histórica pelo conhecimento e a carência de nossos ossos tremem entre três caminhos, quando somos obrigados a caminhar. E não somos três - ou quatro, mas voltar é inadmissível, mas possível.
Entre os três caminhos, um é o desapego total, a perda da memória, o zero, a vida que não tem construção ou referencia. Dois é a substituição de algo que faz falta, não terminado, por outro que não se compromete a fundo, não se arrisca arrancando raízes para arar uma terra distraída e que ainda o mantém preso ao passado: ou seja as vezes o quarto, que foi o da chegada parece mais belo a distância, mantendo você na encruzilhada, talvez eternamente. E finalmente o terceiro, que significa evolução, reformulação, dor, sem medo de sofrer, luz depois de bater no fundo, o trajeto do Xamã, conhecer o conhecido finalmente.
Ninguém decide o caminho pelo outro. E todos os caminho levam a solidão, porque só o poeta pode escolher caminhos. Mas dos quatro rumos a serem seguidos, somente dois podem ser seguidos sozinho.
Todas essas possibilidade só podem ser vistas na alma de quem segue. Os outros veem você caminhando normalmente pelas ruas e sentando calmamente em sua cadeira. E essa aparente situação de normalidade acovarda a trajetória de uma vida, se você aceita a máscara da superfície.
Fazer uma escolha é ter coragem. Mas não se pode exigir,desumanamente, coragem de todos. Alguns não aceitam pagar o preço das escolhas e preferem o limbo eterno, o conhecido superficial e a angústia. E o desconhecido está nas pessoas que conhecemos a fundo, em nós, nas possibilidades que não exploramos do que está muito perto. As outras onze dimensões acontecem agora.
Terça feira de manhã eu tive um sonho em que Artaud dirigia meu carro numa cidade que não consegui saber qual era, mas era São Paulo. Depois eu também dirigia. Procurávamos alguém que havia sumido, entramos em uma loja proibida, escondida, que tinha o tarô de Marselha original. Além disso, essa loja tinha todos os segredos e os donos não vendiam para qualquer um. Um dos donos da loja me levou de volta para uma casa que era a minha e em frente a uma garagem via-se o carro da pessoa que procurávamos, mas a pessoa da porta disse que ela não tinha voltado, não se sabia onde estava. Era o carro com qual ela havia saído. Mas quem era essa pessoa, que também morava ali, não sei.
Foi um sonho de busca. Na verdade, os saltos dos sonhos mostram nossa alma em ação. Um sonho não é algo premonitório, mas um aviso profundamente psicológico do que projetamos e queremos ou não que aconteça. Um mergulho nos quatro desvios da encruzilhada constante que é nossa vida. Avisando que a manhã é hora de fazer uma escolha. Diariamente.
Nós somos sim responsáveis por nossos atos e consequências. Mas é possível mudar tudo e não existe caminho sem volta. Basta que não se procure o engano, justificativas, cegueira.
A loja do meu sonho continha os mistérios do mundo. E só nós sabíamos que ela existia naquele momento, você, apesar de não te ver, estava junto comigo, nas minhas costas interessado em alguma ferramenta ou alguns livros. Como se o segredo de tudo estivesse em um primeiro andar, com uma janelinha mostrando um dia escuro e chuvoso, numa quina do começo de uma rua muito conhecida. De vez em quando o homem mais novo que desconfiava porque eu queria o tarô olhava para fora para ter certeza que não tinham sido descobertos por alguém além de nós. Parece-me que depois você ficou na loja e o carro da garagem era o seu mesmo, com qual havíamos saído para te procurar juntos. O carro era uma espécie de woyage antigo, escuro e um pouco empoeirado e a garagem parecia também uma oficina mecânica não profissional, estreita. Um homem com uma chave de roda limpava na mão, limpando a ferramenta com uma estopa e um pouco sujo de graxa, explicava sorridente escondendo a preocupação que de sua não chegada junto com o carro.
Não sei porque te contei isso nessa carta. Quem sabe por estar chovendo e isso me cria uma certa melancolia, porque a chuva é insistente, escura e está perto do meio dia, onde eu gostaria de ver o sol.
Quanto ao motivo da escolha, eu nos daria um conselho: quanto mais tempo sem procurar, menos mistérios serão revelados. O tempo não está parado nos universos interiores de cada ser. Você e eu somos pessoas novas e há um infinito a ser descoberto nas camadas de nossas individualidades solitárias.

um abraço

1 comentários:

Ronaldo Farias disse...

Também em um sonho, que me levou a 16 anos no passado, me reencontrei com você Marcelo Fonseca, o homem de coragem, que levou aos palcos Antonin Artaud!
Sonhei/revivi alguma de nossas conversas em um boteco/padaria não me lembro direito, tomando conhaque minutos antes de nossa oficina de texto no Mazzaropi - Bráz.
Gostaria de ter finalizado aquele exercício tao rico que tínhamos, porem, não foi possível, pois a necessidade de fazer dinheiro gritou, e fui obrigado a abandonar vocês.
Aqui quero deixar meus agradecimentos, pelos diálogos, pelos textos que ensaiávamos (Lembro que era de um certo Wilde que não Oscar) e pela oportunidade de hoje ter essa boa lembrança.

Que esse ano seja repleto de saúde e sentimentos nobres.

Grande Abraço.

Ronaldo Farias