Faço a manhã nascer fulminante
sob o impacto surpreendente da luz vivida,
acendo um cigarro, sem me importar com o tempo
e emano orações na direção de teu trópico.
Na noite passada disseste uma lágrima
presa na garganta e me deste o recado
inflamado da bagunça de nossos corações
desembestados nos peitos trocados.
Vejo o decote de tua blusa de adornos
tiro a cor carmim de teu batom desenhado
com um leve roçar de suspiro profundo
sentindo a fuga passageira da respiração.
Apoio na volta de teus quadris de lua
enquanto cheiras a lilás bem doce,
pouso a mão invadindo teus dedos
e teu joelho liso aninhando meus sonhos.
Quando me perguntaste o quando
respondi que o quando é sempre...
Queixaste-te sorrindo da armação do destino
e eu me deixo abalar pela volúpia de vontade de ti.
Nossas palavras preciosas, investigativas,
navegaram-se na aurora das coisas sutis,
nos medos descompassados, tuas unhas
tem a cor dos vales outonais dos bosques claros.
A minha volta pessoas incalculavelmente felizes
desejam bom dia em todas as línguas
e tento que se estenda a mim sua graça
anunciando a revolução do espírito amado.
Passaste tua língua em meus lábios com arte
teus saltos muito brandos dançaram minha cabeça
tuas conjecturas imolaram minhas saudades
teus nervos transpassaram minha libido.
Tens a aposta das saliências das marés
Tens a idade da loucura, da harmonia e da fatalidade
Tens as felicidades represadas numa envolvente
bruma de jaboticabas selvagens.
Meu inverno segue aflito
calo o som do grito se teus gostos me sugerem
o encontro perdido das inúmeras colchas
entrelaçadas em nossas esferas.
És como as ruínas onde se respiram os sagrados
És como o rio gelado que intensifica o corpo
És a torre alta onde o mago habita tua risada
És clara como a espuma na noite.
Tu, rútila na madrugada,
dourada no dia, vermelha na alvorada
intensificando-te na virada da metade
do trajeto feito pela glória de ser mulher.
Rasgo meus sentidos incautos
acariciando-te em telepatia e ouvindo-te numa carta
pelo tempo paralisado em que construo
meu álbum de família com poeiras de memória.
Vejo-te no espelho por meus olhos
teus olhos verdes de vidraça ao sol
contemplados pelos minutos que demorei
para te decorar em setembro no tapete da sala.
Amada, eu te encontro no infinito
para fazer silêncio enquanto aos poucos
refaço o coração maltratado de injúrias
inventadas pela minha imaginação.
Nada tenho para te dizer, nenhuma novidade,
a não ser o amor sublime que permanece encanto
olhando em volta para ver se chão é o que me cerca
na delirante estante de teus abraços.
Nada tenho do que em mim se fez desatenção,
nada para oferecer além do amor para o qual me convidaste
imprimindo o fogo em minha pele
e a certeza em minhas recordações atuais.
Fiz de tua cama minha estrada,
de tuas palavras minha inspiração
de tuas mãos meus arrepios
de teus olhos o meu vinho.
Tomamos Gewurztraminer gelado colidindo
nossos corpos no plano mais alto
com teus azuis fendidos no assoalho liso
das libertações primordiais.
Enfim, a vida se agita transversalmente
na região dos sonhos meus,
alimentando a gota do lírio
na displicência da primavera.
0 comentários:
Postar um comentário