"As cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas."
Álvaro de Campos
levanta agora o monstro do lago do sol extraviado do aeroporto imaginário dos mendigos
os pedintes de amor de inverno agitam bandeirinhas de papel na rua Lopes Chaves
onde um piano toca uma Modinha de viola quebrada
todas as manhãs as tropas de fuzilamento travestidas de professores intimidam o gesto
nem tudo que se escreve serve para alguma coisa tem algum sentido merece ser lido
os plantões médicos atendem os sobressaltos dos meus sonhos com a tourada do amor
moscas de gosto fino pousam em minha poesia inacabada pelo tempo
pulmões da avenida paraplégica onde um dia atravessei seu riso com uma espada
assopram uma ferida que começa a deixar saudades da dor latente
correm pelos meus braços toda força da poesia psicótica que procura nas lixeiras seus poros
seus ímpetos
seus mártires
enobreço o engano da fala mansa e ingênua informando um posto novo no universo imparcial
em que um machado espera a ordem para derrubar a árvore com brotos de libélulas
o demônio da sabedoria condena agora: fim de meias palavras fim de poucas danças
é mais nobre morrer de raiva do que de felicidade
não sou vítima inocente dessa avalanche de destino como um caminhão de pedras sobre meu peito
coloco meu humor a disposição da voz que clama a si mesma
faço reparos nas frases da aurora
roo a fumaça dos cigarros embrutecidos com os despojos de uma paixão sanguínea
as ruas estão passando uma a uma por cima do meu edifício colado no céu
abro os clarões da retórica imerso em más intensões literárias
para esticar meu braço tocando a mulher de lá onde o mundo se acaba.

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